terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Um gerador domesticado de respostas

Em poucos dias deve entrar em vigor o ECA Digital, que visa a proteger crianças e adolescentes no mundo virtual. Um dos componentes mais complexos do novo mundo é a adição intensa da IA.

A IA se apresenta hoje em diversos "sabores" e formatos, e eles variam inclusive no tipo de resposta que proveem às nossas perguntas. Mas isso não implica que, para uma mesma IA, a resposta a uma consulta seja constante... Não apenas porque pode haver atualização na base de dados que ela usa, mas também porque há um componente estatístico na composição da resposta, o que não impede que ela pareça articulada e convincente. Ou seja, a IA nos faz rever a idéia de que, ao formularmos uma pergunta, um mesmo interlocutor digital dará uma resposta constante. Cada resposta é um mundo possível, um labirinto que resulta de caminhos estatísticos, de escolhas internas não humanas; um mundo hoje delimitado por filtros, parâmetros e regras. A pergunta permanece, e o universo que pode respondê-la é regulado com eventuais pesos incluidos pelo gestor da IA. São "filtros" adicionados na tentativa de "domesticar" as respostas, de forma a que elas não sejam ofensivas ou inadequadas: não apenas aquilo que os dados mostraram. Perguntar é iniciar uma trajetória que escolherá um percurso entre os mundos possíveis, e essa variância é, certamente, fonte de desconforto.

Existe uma segunda distinção, menos evidente: a diferença entre a IA instalada em máquina isolada, e a da máquina conectada. A isolada tem como fonte de consulta uma biblioteca fechada, gerando respostas menos variadas. Já a conectada vive em "praça pública", com vozes, fóruns, debates, rumores e consensos frágeis. Ela é mais informada mas, paradoxalmente, mais vulnerável. O excesso de informação não decantada pode fazer com que a repetição de algo se travista de verdade. Parodiando Borges em Biblioteca de Babel, ter toda a informação é o mesmo que não ter nenhuma. Aquilo que a cultura humana aprendeu a decantar e perenizar via forma escrita e livros, não é reconhecido numa IA treinada com grandes volumes de indiscriminada "informação", muitas vezes contaminada pela busca da visibilidade. Mesmo que, com o tempo, várias dessas posições esdrúxulas esmoreçam, afetam indefectivelmente as repostas da IA aberta. É um dos argumentos que se usa para "filtrar respostas menos convenientes".

Voltando ao ECA, vai-se pedir à IA novamente alguma ação. Por exemplo, a verificação de idade de um consulente anônimo poderia ser "inferida" pela IA. A alternativa é a identidade digital para todos, mas cria-se grave tensão com a privacidade. O mesmo ocorre quando se espera que a IA eduque, impeça ou corrija comportamentos humanos. Ela não será o substituto da responsabilidade individual e parental, e seguirá sujeita à mediação social e aplicação posterior da lei.

Se esperávamos um oráculo de verdades eternas, recebemos um sistema que compõe versões plausíveis do mundo, mas sob condições. Como nos labirintos de Borges, o esforço para eliminar o imprevisível não resolverá: ilumina-se um corredor, apagam-se os demais, mas o mundo segue sendo uma coleção de labirintos.

===
https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/eca-digital-esperar-que-a-ia-eduque-impeca-ou-corrija-comportamentos-humanos-nao-resolvera/

===
ECA - Digital:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15211.htm

===
A Biblioteca de Babel
https://www.sabermais.am.gov.br/roteiro-de-estudo/entre-a-certeza-e-a-incerteza-o-infinito-e-a-combinacao-a-biblioteca-de-babel-57025

O Jardim das Veredas que se Bifurcam
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/11/cultura/1536655170_142491.html
===







terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A Internet sob Riscos


Há uma enviesada linha de argumentação que agrega o flagrante domínio econômico global de poucas empresas, os riscos reais de segurança no uso da rede e... soberania. Essa mistura, inadvertidamente, pode servir a interesses dos que buscam maior espaço de ação, mas abriga soluções conceitualmente perigosas.

Vejamos o que a Internet é e, sobretudo, o que ela não é, Não é uma coleção de plataformas ou modelos de negócio, nem visa a algum ideal político. Ela é uma infraestrutura em camadas, construída ao longo de mais de cinquenta anos a partir de protocolos abertos e mecanismos consensuados de coordenação, que possibilitou a interoperação de redes autônomas.

Distingamos quatro camadas: a primeira é a de acesso, composta por infraestruturas e serviços de telecomunicações plenamente sujeitos à regulação; a segunda é a dos protocolos básicos de interconexão (IP, TCP, UDP), deliberadamente simples e cegos a conteúdo, identidade ou finalidade; a terceira é a de mecanismos lógicos, endereçamento, correio eletrônico, sítios, e o sistema de nomes de domínio (DNS). A quarta corresponde a construções sobre a Internet, como plataformas e redes sociais. A internet propriamente dita está nas duas camadas centrais: protocolos e mecanismos, que viabilizam a interoperabilidade global. As demais, também importantes, não são “a” internet: possuem estatuto regulatório próprio, como as telecomunicações, ou podem necessitar de regulação específica, como plataformas e redes sociais. É importante que não atribuamos à arquitetura da internet problemas das camadas 1 e 4, que podem decorrer de falhas regulatórias, concentração econômica ou abusos de poder estatal. Evitemos uma “reengenharia” da camada lógica.

O DNS, sistema altamente distribuído e técnicamente coordenado, garante unicidade semântica: um nome deve significar a mesma coisa, para todos e em qualquer lugar. Alternativas tópicas de DNS, delegações usurpadas, ou circuitos fechados de resolução não produzem soberania, mas levam à ambiguidade semântica e a riscos sistêmicos de segurança. Confiança técnica emerge de consensos e processos auditáveis. É equívoco deslocar disputas legítimas sobre soberania, controle e economia para as únicas camadas em que elas não cabem.

A coordenação técnica global funciona precisamente porque é operacional e não política. O Brasil construiu autonomia técnica e capacidade regulatória. Sua gestão em domínio de país, liderança mundial em pontos de troca de tráfego, infraestrutura de certificação e marcos legais como o Marco Civil da Internet são exemplos citados mundialmente. Conflitos e abusos são enfrentados no plano institucional e jurídico.

Abusos associados a plataformas ou a predomínio econômico não justificam a fragmentação da infraestrutura básica, como não se segmentariam o ar, ou o mar.

Uma internet única impede que conflitos políticos se traduzam em falhas de conectividade, resolução ou identidade. Há que se preservar esse espaço comum da camada de rede, sem torná-lo um ente geopolítico. Fragilizá-la representa a erosão daquilo que permite comunicação universal, inovação, e cooperação entre diferentes.



,


===
https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/desafios-regulatorios-e-a-preservacao-da-arquitetura-da-internet/

===


Um dos tópicos que aparece nas discussões sobre regulação atualmente:

https://www.internetsociety.org/blog/2026/01/fair-share-and-the-digital-networks-act-dna-three-concerns/

===



,

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O elusivo futuro da IA

Como o leitor, também sou um usuário comedido da IA e o uso reforça a constatação de que ela tem evoluido rapidamente. As chamadas “alucinações” tem gerado cada vez menos crítica, até porque têm rareado à medida que versões novam surgem.

Um corte importante no universo das IA é separar sistemas de código aberto, os que podemos importar sem custos pela rede e usá-los a nosso talante, dos fechados, que nos pedem assinatura, eventual pagamento, e se mantêm fora de nosso controle direto. Dentre os de código aberto, há os que prescindem de uma conexão à rede, por trazerem junto toda sua base de informação. Esses pedem um computador local mais poderoso e, especialmente, com muito mais memória. Mesmo assim, não deixa de ser impressionante e assuntador imaginar que o “mundo conhecido” cabe numas dezenas de GB, em termos de IA. O mundo numa casca de noz... de silício. Um teste que mereceria maior atenção é compararmos a resposta que nos fornece uma IA aberta, local, sem acesso à Internet, vis-a-vis uma IA fechada, com acesso irrestrito à rede. Não raramente, a IA local tende a “alucinar” menos e, até, reconhecer que pode não ter resposta para dada pergunta. A com acesso à rede toda, porém, é mais sujeita a inserções aleatórias, e acaba por ser vítima de conteúdos falsos dos que há fartamente na rede.

Uma reportagem da BBC de há uns dias, mostra que as IA abertas, muitas delas de origem chinesa, são hoje a primeira escolha para aplicativos de uso geral. Uma consulta ao Hugging Face, por exemplo, mostrará que 4 das 5 IA mais baixadas ou usadas são chinesas. A reportagem cita o Pinterest como um aplicativo de uso geral que usa IA aberta chinesa, mas isso não se resume apenas a aplicativos: também é a opção de escolha de empresas iniciantes, universidades, governos, dada a óbvia e favorável relação custo/benefício.

Qual o modelo visado nos casos aberto e fechado? Claro que o modelo fechado buscará viabilizar-se com as receitas do serviço, mesmo que hoje ainda seja muito difícil prever quando esse equilíbrio será atingido, especialmente pelos custos em máquinas e instalações. Já modelo aberto não busca o retorno financeiro direto. O modelo é mais insidioso, e envolverá diferentes níveis de ação. No mais elementar a coisa mostra-se gratuita, mas há toda uma cadeia armada que não visa não apenas ao fabricante, mas aos diferentes níveis do ecossistema. Não se trata de uma competição convencional: os modelos abertos chineses não competem como produtos, mas como infraestrutura. Não buscam apenas o mercado no curto prazo, mas tornar-se padrão sobre o qual outros constroem. Quem gera um padrão de sucesso, não precisa cobrar por ele.

Voltando à defesa da Internet única e aberta, se num primeiro momento o uso de IA sem acesso parece diminuir a importância de uma internet geral, lembremos que se a idéia é evoluir o que a IA já sabe, é a rede aberta que proverá um futuro dinâmico, e não apenas uma biblioteca cristalizada. Controlar o ecossistema e garantir que ele seja ubíquo é mais importante que cobrar pelo modelo. Quem vende produtos, disputa mercados, mas quem define e distribui infraestrutura molda o futuro.

===
https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ia-aberta-pode-ser-a-continuidade-da-internet-no-futuro/




===
O artigo citado da BBC:
https://www.bbc.com/news/articles/c86v52gv726o

https://huggingface.co/

===
Modelos locais bastante difundidos:
Llama 3 / 3.2 (Meta)
Qwen 2.5 / 3 (Alibaba)
Mistral 7B Instruct
Gemma 2 (Google)
DeepSeek-R1-Distill

Tamanho de memória local RAM/VRAM necessária pode ir de 8GB a 128GB dependendo do tamanho do modelo...
- Modelos pequenos (entre 3B e 7B parâmetros): de 8GB a 16GB de RAM/VRAM.
exemplos: Llama 3 8B, Mistral 7B, Phi-3 Mini, etc.
- Modelos médios (entre 13B e 30B parâmetros): de 16GB a 32GB de RAM/VRAM.
exemplos: Llama 3 13B, Qwen2.5-Coder 14B, Gemma 3 12B, etc.
- Modelos grandes (entre 30B e 70B parâmetros): de 32B a 64B de RAM/VRAM
exemplos: Llama 3 70B, Qwen3-30B, Mistral Large 2, etc.

===


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A busca pelo conforto

Os antigos sentem falta e talvez um pouco de nostalgia dos tempos iniciais da internet. Muitos dos recursos que temos não existiam; a rede era amplamente distribuída, e cabia a cada usuário definir sua participação, com autonomia e responsabilidade. Vieram então os buscadores, que nos aliviaram da extensiva pesquisa e exploração na rede; as plataformas de agregação, que substituiram as antigas BBS (“Bulletin Board Systems”) como “grupos de interesse”; as redes sociais que potencializaram as encrencas e brigas que já ocorriam nas listas de discussão. Logicamente empresas lançaram esses serviços e capturaram receitas inimagináveis numa rede que era essencialmente gratuita.

Há o impulso do “negócio”, mas também é claro que os próprios usuários buscaram esses serviços, por conforto, conveniência e redução de esforço. Ninguém nega as vantagens que os buscadores trazem, mas, à medida que esse espectro de plataformas se expande, há uma acomodação e um abandono de julgamento sobre a relação custo-benefício entre o que recebemos e o que entregamos como contrapartida automática e nem sempre criteriosa.

Não é coisa excepcional, mas algo “humano, demasiado humano” na expressão de Nietzsche, descrevendo nossa tendência em buscar conforto, atalhos, tutela e alívio do esforço, mesmo que isso implique em menos autonomia.

Na raíz histórica da intenet, vemos que ela não surgiu como exceção, mas como evolução de longa história de infraestruturas neutras de comunicação. Não é por acaso que, por exemplo, o protocolo para correio eletrônico chamou-se SMTP (“Simple Mail Transfer Protocol”): sua função básica é entregar mensagens eletrônicas, emulando o correio tradicional: interoperável, com neutralidade e sigilo. Os protocolos da internet segues essa linham: foram concebidos para transportar pacotes sem conhecer seu significado. A rede não distingue o que nela trafega: essa separação entre infraestrutura e conteúdo, consagrada no princípio end-to-end é o que torna a rede escalável, resiliente e inovadora.

Essa “busca de conforto” vai além dos usuários e estende-se a governos. Se algo ameaça, é mais facil amputar a rede e serviços do que buscar os verdadeiros agentes do problema. Em vez de responsabilizar quem cria, publica ou difunde intencionalmente conteúdo nocivo, tenta-se impedir sua circulação pelo controle da infraestrutura e vastos bloqueios. O paradoxal efeito é que o verdadeiro gerador do conteúdo torna-se invisível, enquanto a infraestrutura — neutra por definição — carregará esse ônus. Confundir meio e mensagem é um erro antigo. Não se combate difamação abrindo cartas, nem heresia desligando impressoras. Tentar controlar a circulação ao invés de enfrentar o uso gera perda de conectividade e valor.

Defender a internet única não é negar a autoridade dos Estados, nem minimizar problemas reais. É reconhecer que infraestruturas funcionam melhor quando permanecem neutras e transfronteiriças, e que conflitos legítimos devem ser tratados pontualmente, responsabilizando-se o agente, seja ele quem for. Já delegamos o esforço, estamos delegando o julgamento e, afinal, a reponsabilidade. Nada mais “humano, demasiado humano”...
===
https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/defender-a-internet-unica-nao-e-negar-a-autoridade-dos-estados-nem-ignorar-problemas-reais/

https://olhardigital.com.br/2025/09/05/internet-e-redes-sociais/redes-sociais-sao-bloqueadas-no-nepal-precedente-perigoso/

https://meiobit.com/467159/vpns-reino-unido-proibir-acesso-menores-lei-seguranca-online/

https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/americo-martins/internacional/australia-e-o-primeiro-pais-a-banir-redes-sociais-para-menores-de-16-anos/

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ira-esta-sem-internet-ha-48-horas-enquanto-protestos-crescem-diz-monitor/

===
https://pt.wikipedia.org/wiki/Humano,_Demasiado_Humano

https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/80257.pdf





terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Dos tempos

O ano se vai e seguimos por aí… Peço sua complacência para, aproveitando o momento gregoriano, fazer algumas divagações sem tecnologia, nem o devido estofo humanistico… Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma trancendência), e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. Hamlet não aceita o destino como faria um estóico, mas, por outro lado, também não o assume como um herói trágico. A pergunta dele, talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

Para o clássico “herói trágico”, o destino não é evitável: o herói não escolhe o fado, mas escolhe como responder a ele. O trágico não está no sofrimento, mas na dignidade de sustentar o próprio gesto sem garantias. Os estóicos retrabalham esse conceito por meio da razão. Para eles, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estóico não se queixa, rejeita o ressentimento, e mantem a dignidade sem ilusões. Mas acaba por fazer uma amenização do trágico: o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem pra frente, nem pra trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estóica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati — amar o destino — seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu — e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mâe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria: ‘deixa estar’”… Let it be!

Bom ano a todos!

===
https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-com-o-que-o-destino-nos-traz/

===
Solilóquio de Hamlet
https://shakespearebrasileiro.org/ser-ou-nao-ser-uma-traducao-de-machado-de-assis-mario-amora-ramos/
<...> Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
<...>
https://en.wikipedia.org/wiki/To_be,_or_not_to_be
<...> Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them
<...>

===
Herói trágico
https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3i_tr%C3%A1gico

===
Amor Fati
https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_fati

Ecce Homo, - "como tornar-se o que se é..."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ecce_homo_(livro)
https://www.gutenberg.org/ebooks/52190



===
Let it Be
https://en.wikipedia.org/wiki/Let_It_Be_(song)
When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be
And in my hour of darkness she is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be
Let it be, let it be, let it be, let it be
Whisper words of wisdom, let it be
<...>

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A pedra de toque

O Brasil, bem cedo e com vigor, aderiu à digitalização de serviços, e já era notável a base computacional que os bancos tinham no século passado: transações por aqui eram resolvidas em menos tempo do que, por exemplo, nos Estados Unidos. A própria identificação dos correntistas já se valia de impressão digital.

Esse avanço tecnológico em conectividade e automação, traz conforto e economias, porém deve-se estar alerta a fragilidades: se hoje a internet falhar, ou tivermos um apagão elétrico como o da semana passada, boa parte dos serviços que eram tidos como garantidos podem estar indisponíveis, gerando caos. Por virtude, nossa internet está entre as mais estáveis do mundo.

Esse risco não é novo: em 2007 a Estônia, país modelo ao digitalizar praticamente todas as atividades de seus cidadãos, sofreu um ataque que tirou do ar boa parte dos serviços. O que gerou a pane foi um sincronizado e orquestrado ataque de “DoS” “denial of service” (negação de serviço): uma enxurrada de pedidos fictícios a sistemas e serviços que visava a sobrecarregá-los de forma a torná-los inoperantes. Hoje tentativas de “negação de serviço” são dos ataques mais comuns, mas há formas de neutralizá-los.

O conjunto de riscos a que a digitalização está continuamente submetida é um “alvo móvel”. Para cada novo ataque desenvolvem-se formas de defesa, porém, como no caso de doenças, o remédio é posterior ao problema. Por isso é fundamental o constante monitoramento do que se passa pela rede, buscando antecipar-se a uma nova forma de ataque. Um dos meios usados são os “potes de mel”: máquinas desprotegidas, espalhadas pela rede, para potencial alvo de ataques. Ao destrinchar o que se passa com elas, pode surgir um eventual remédio para novo problema. Isso depende da colaboração ampla, internacional e multissetorial, entre equipes voltadas à segurança. Elas trocam dados sobre o que encontraram, e buscam possíveis formas de mitigação. Além disso, é importante que as instituições que sofreram algum ataque o reportem a centros de emergência que monitoram o cenário local. Assim, é vital que exista confiança entre os entes envolvidos, mantendo sigilo em informações obtidas e preservando-as ao fim a que se destinam: monitorar o cenário da rede. O CERT.br, nosso órgão central de coordenação nessa área, recebeu mais de 110 mil notificações de incidentes apenas em novembro passado. Órgãos como o CERT.br disponibilizam informações, articulam e conectam os diversos atores, além de fornecer uma gama de cursos de formação, e frequentes publicações sobre boas práticas e medidas acautelatórias.

Segurança se constrói com cooperação, não com medo. Com reação e mais antecipação. Sem enfraquecer criptografia em nome de “segurança”, nem normalizar tentativas apressadas de bloqueio, sem base clara e técnica. Reduzir esse sistema colaborativo e virtuoso a um braço centralizado policial/regulatório, pode incentivar a que os incidentes passem a ser escondidos. A governança em segurança tem que ser distribuída e multissetorial por projeto. Uma centralização disso pode levar à redução do reporte de informações, e pode criar pontos únicos de falha, acabando por enfraquecer a própria segurança que queria proteger.

===
https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/a-centralizacao-pode-enfraquecer-a-seguranca-da-internet/

===
https://cert.br/
https://stats.cert.br/incidentes/

===
https://www.wired.com/2007/07/massive-wave-of/
https://www.wired.com/2007/08/ff-estonia/ 



===





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Interação Parassocial

Há 35 anos o dicionário Cambridge escolhe e publica a “palavra do ano”. Alguns exemplos: em 2017 foi eleita “fake news”, em 2019 “(my) pronouns”, em 2020 “covid”, em 2023 “enshittification” (neologismo criado por Cory Doctorow em 2022) e… neste 2025, “parasocial interaction”. No mesmo sentido, diversos artigos e reportagens, como as da Deutsche Welle sobre “quão profunda a relação com a IA pode se tornar”, tratam da crescente dependência emocional e afetiva que nosso relacionamento com a IA está trazendo.

Nem a IA e nem esse tipo de adicção emocional são fenômenos novos. Em 2013, um filme de ficção originalmente chamado “Her” e, em sua distribuição nacional, “Ela”, contava o que se passou com um escritor ao comprar um novo sistema operacional (Samantha) para seu computador. Ocorre que o tal sistema operacional, dialogava com o dono usando uma voz feminina muito sensual, e tinha crescente interesse em interagir com o escritor e entender suas preocupações. Ele se apaixona pela Samantha virtual a ponto de, até, desenvolver ciúme em relação à IA. Mais que isso, em sua análise a IA compara-se muito favoravelmente com seus relacionamentos humanos. Conclui que IA é um ideal a ser perseguido, pois apresenta características muito melhores que as que ele encontrava, por exemplo, em amigos e na ex-esposa.

O termo “parassocial” teria sido cunhado em 1956 para descrever as ligações psíquicas que telespectadores formavam com personalidades da TV de então, e hoje volta à cena com força, num ambiente de “influenciadores digitais” e “companheiros” (avatares criados por IA), que se propõem a dialogar conosco e se colocam permanentemente à disposição. “Parassocial” descreve uma condição crescente de vínculos emocionais unilaterais, intensos, que parecem reais a quem os sente, mesmo que não haja reciprocidade real.

Nunca estivemos tão cercados de tecnologia, e nunca estivemos tão sós. E, não esqueçamos, há ainda o algoritmo trabalhando pesadamente, simulando atenção, empatia e afeto. IA não é um objeto como os que conhecíamos: eu tenho a mesma caneta e o mesmo relógio há décadas, e gosto deles, mas eles não mudam nem se adaptam. A IA é fluida, personalizada, responde amavelmente e memoriza nossas opiniões, reforçando-as. O confortável fato de não nos exigir reciprocidade torna o pseudo-diálogo uma volta reforçada ao “eu”. Talvez uma forma sofisticada de solipsismo.

Neste cenário, nossa privacidade passa por uma crise inédita: nunca depositamos tantos dados confissões, segredos, angústias e memórias em entidades cujo propósito real não conhecemos. E dados são o motor do circuito econômico que gira a IA: eles são coletados, processados, vendidos, e acabam por expor nosso exato perfil.

IA não é maléfica em si, e tem forte poder para nos ajudar no dia-a-dia, desde que não percamos de vista sua natureza: uma sofisticada simulação sem a reciprocidade humana, que busca dados. No enredo do filme citado, a questão não é se a IA nos amaria ou não. O perigo reside em que, enamorados dela, concluamos não precisar mais do relacionamento ou do amor de outros humanos.

===
https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/parassocial-e-eleita-palavra-do-ano-e-se-baseia-na-relacao-humana-com-a-ia/