terça-feira, 6 de outubro de 2026

Aprendiz de Feiticeiro

Mesmo não sendo o tema principal destes dias, incidentes com IA seguem ocupando espaço importante em nossas preocupações. A abordagem desses eventos acaba sendo mais sensacionalista do que ancorada em sua características reais. Sem amenizar preocupações crescentes que temos sobre as ações da IA, especialmente agora que ela mostra capacidades de "agente autônomo" em diversas situações, é salutar evitar uma "humanização" descabida, ao menos com relação ao seu desenvolvimento atual.

Se, por um lado, é fundamental recolher informações sobre o que se passa com IA no mundo, ainda mais importante é buscar taxonomia dos incidentes de IA, para uma análise sólida.

Um texto recente de Bruce Schneier discute a forma como se decrevem os incidentes de IA. É inevitável, claro, uma pitada de sensacionalismo em busca da atenção dos leitores e, como sempre, as palavras usadas tem muita importância. Afinal um "gênio que saiu da garrafa e atende desejos" pode ficar muito mais perigoso se, além disso, ele se rebelar. Schneier adverte contra essa antropomorfização da IA, ao atribuirmos "intenções" a ela. É possível que os cenários mais assustadores dos textos de ficção científica se materializem, mas, ao monos hoje, há que se manter a serenidade na análise. Dizer, automaticamente, que a "IA se rebelou", poderia equivaler a dizer que "a eletricidade se rebelou", ou "o fogo se rebelou"... A prática recomenta que se busquem as causas de cada problema, que podem estar deste um comando incompleto ou mal dado, até defeitos internos reais na IA. Vem à mente a cena do Aprendiz de Feiticeiro, onde o rapaz encanta o esfregão para que faça o serviço de limpeza. Dá a ordem mas não sabe como interrompê-la.

Temos hoje uma ferramenta muito poderosa, talvez a mais poderosa que o homem criou, e seu controle deve estar em mãos sábias. No caso do Aprendiz, apenas a chegada do mago-mestre interrompeu o caos.

Importa o comando que damos à IA para cumprir. Há um enorme contexto humano subentendido, muito difícil de repassar ao nosso "agente". Se alguém nos pedir ajuda, ele não precisa adicionar que essa ajuda não pode incluir trapaça, crimes ou violência contra outros. Certamente isso não é tácito no "prompt" que passamos à IA. Claro que ela pode aprender com textos sobre ética mas, mesmo assim, a cultura no contexto pode estar totalmente inadequada. E, de novo quanto à linguagem, a descrição de um incidente como "IA ´hackeou’ um ministério na Austrália", passa uma sensação muito diversa de "IA incluiu busca de vulnerabilidades ao procurar dados solicitados".

Para iniciar uma discussão sobre taxonomia, podemos inicialmente classificar eventos em categorias: 1- há falha interna do agente IA; 2- há uso malicioso da IA por humano; 3- IA gerou situações inesperadas, tanto ṕara o bem (ex. novos remédios) como para o mal; 4- IA alterou o comportamento humano e social, gerando "confiança" e novo poder. Em suma, é importante analisar, como no caso de acidentes aéreos ou de epidemias, a causa, o vetor de propagação, o ambiente e, até, a existência de um eventual hospedeiro.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-ia-vista-como-um-genio-que-se-rebela-ao-sair-da-garrafa-assusta-como-lidar-com-esse-risco/
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Texto citado de Bruce Schneier:
https://www.schneier.com/blog/archives/2026/09/i-want-better-reporting-on-ai-genie-behavior.html

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Poema de Goethe sobre "aprendiz de feiticeiro":
https://pt.wikipedia.org/wiki/Der_Zauberlehrling
e o fecho do poema:

No Original (Alemão)
«In die Ecke,
Besen! Besen!
Seid’s gewesen.
Denn als Geister
Ruft euch nur, zu diesem Zwecke,
Erst hervor der alte Meister.»

Tradução para o Português
"Para o canto,
Vassoura! Vassoura!
Acabou-se a história.
Pois, como espíritos,
Só vos chama para esse propósito,
Primeiramente, o velho mestre."

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e um caso de incidente:
https://www.proofpoint.com/us/blog/threat-insight/hallucinating-credibility-china-aligned-ta419-impersonates-its-way-us-ai-policy

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Don Carlo e a IA

Está em cartaz uma bela montagem da mais extensa ópera de Verdi, Don Carlo. Ambientada cerca de 1500 na Espanha, trata das desventuras do primeiro filho de Filipe II, Carlos, que morreu desgostoso aos 23 anos. Sumariamente a trama se desenvolve sobre o frustrado amor com sua prometida, Isabel de Valois, filha do rei de França, que acabou destinada a casar-se com Filipe II, forma de consolidar a paz entre os dois países. O que teria a ver Don Carlo com os tempos da IA? Bem, sempre podemos dar asas livres à imaginação, e tentar comparar com o que vemos hoje...

O primeiro grande contraste é a precedência de valores que havia à época, retratada uns séculos depois. A hierarquia era: honra > amor > vida, e isso é claramente declarado pela personagem Rodrigo, amigo figadal de Carlos. Ou seja, para preservar a hora, abre-se mão do amor, que segue mais importante que a própria vida. Rodrigo se sacrifica por seu amigo Carlos, e Carlos preserva a honra de Isabel e a própria, acima de seu amor.

Como isso nos remeteria à IA? Uma observação é que o conceito de "honra", como era sentido antes, talvez tenha migrado para outras áreas. Hoje fazemos coisas que nos são legalmente permitidas, mas aquilo que, eventualmente, não seria "honroso fazer" nem sempre vem à mente. Os agentes de IA, então, não possuem "honra", mas objetivos a serem alcançados. A noção de que "há coisas que simplesmente não faço" pertence à ética humana, e é estranha ao agente de IA. É subconsciente clássico de "honra", que ainda mora em nós. Um agente de IA, certamente, teria menos pruridos.

Pergunta-se: na hipótese de repassar as decisões das personagens a agentes de IA, as ações tomadas seriam as mesmas? Entre buscar retomar para si Isabel, ou preservar o casamento do pai, o que "IA Carlos" teria decidido? Entre dar sua vida para preservar a de Carlos, ou seguir bem na corte de Filipe II, o que "IA Rodrigo" teria valorizado?

Nosso julgamento de méritos e deméritos associados a decisões e ações da IA ainda segue bastante balizados pelos conceitos que herdamos. Ainda bem!. Lembrando de outro tema operístico, a madame Butterfly usa a mesma adaga com que seu pai deu cabo à vida, e na qual se lê "morra com honra quem com honra não consegue viver". De novo, na hierarquia de valores, honra se sobrepõe ao amor, e à própria vida.

Talvez a mudança mais profunda por que estamos passando seja uma revisão da ordem de valores e, até, do conceito associado. Hoje, "perder a honra" lê-se como ser "cancelado nas redes". Glória seria ter uma considerável ressonância: ser um "influenciador". É importante a discussão sobre a ética no uso do ferramental de IA porque, de alguma forma, há valores que podem estar sendo fragilizados modernamente. O risco de aumentar ainda mais nossa insensibilidade É ética humana antigos é passarmos a aceitar que a IA escolha baseada nas metas que recebe. Carlos podia, para atender a sua paixão, matar o pai e retomar a madrasta para si. As peças clássicas vão no sentido de exprobrar isso. Um embate entre valores humanos arraigados, e a tentação de apelar ao que passamos a chamar de "lei de Gerson", a busca de "levar vantagem em qualquer situação".

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/sera-que-as-tramas-da-peca-de-verdi-seriam-as-mesmas-se-fossem-criadas-por-agente-de-ia/
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Don Carlo:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Don_Carlos

https://web.facebook.com/watch/?v=1034884319599042

https://www.youtube.com/watch?v=6G0iCwTK2DQ



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Madama Butterfly
https://web.facebook.com/watch/?v=1034884319599042

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Casos de morte "por honra" em duelo
Évariste Galois
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89variste_Galois

Alexandre Pushkin
https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Pushkin
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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A longa mão da IA

Ninguém discorda de que a IA abre um potencial imenso à nossa frente, mas isso reforça a necessidade premente de saber qualificar o seu uso: obter dela as vantagens latentes, sem que tenhamos que tratar de inesperados e delicados novos problemas.

Na semana que passou falou-se do terceiro teorema de Fermat. Fermat enunciou em 1637 algo sobre uma extensão ao teorema de Pitágoras - aquele dos triângulos retângulos onde "um quadrado pode ser a soma de dois quadrados": ele valeria apenas para o expoente 2; para maiores que 2 não há solução possível em números inteiros! E anexou uma misteriosa nota: "descobri uma demonstração maravilhosa, mas não cabe nesta margem". Passaram-se mais de 350 anos para que uma solução fosse encontrada. Andrew Wiles conseguiu isso em 1995, após trabalhar sete anos gerando uma prova em quase 130 páginas... E agora a Anthropic anuncia que sua IA conseguiu gerar a formulação computacional perfeita desta prova, em apenas 11 dias de trabalho e testada pelo sistema LEAN,

Mas há uma outra notícia, que pareceria ser o anti-climax da anterior. A prestigiosa revista CACM, Comunicações da Associação de Computação, denuncia um problema atual: enquanto a IA consegue gerar milhões de linhas de código rapidamente, o trabalho para verificar a correção e os riscos na implementação do "software" gerado por IA continua sendo cada vez mais exigente de trabalho humano...

Como equilibrar essa duas mensagens? São opostas, ou é um falso dilema? A IA é muito boa em lógica, como mostra a primeira mensagem. Por que não seria igualmente eficiente na geração de código complexo? Talvez a explicação resida no contexto humano. Sem dúvida a IA pode contribuir imensamente na solução de problemas lógicos, e para a descoberta novas drogas, proteinas, etc, mas pode falhar espetacularmente quando se trata de "situações humanas", cuja definição inclui subjetividadas não formalmente expressas. Entre os programadores é familiar o dito: "esse programa está certo, mas não atende ao que foi pedido pelo usuário". Ou seja, sem a formalização logica completa da demanda, há nuances humanas que a IA não perceberá. Voltando ao HAL9000 de 2001, Uma Odisséia no Espaço, a máquina estava cumprindo logicamente seu objetivo. Os terríveis meios de que se valeu não estavam formalmente expressos.

Sob esse prisma, são pontos complementares, e a IA segue o caminho tradicional da mecanização, poupando o trabalho físico e mental ao homem. Talvez "matemática", como puro campo da lógica, já seja absorvível pela IA que temos. Há amplo espectro em que equipamentos são mais eficientes que humanos, desde cálculos a cirurgias. Ao lidarmos, porém, com problemas em que seu contexto não é exprimível em pura lógca, é temerário aceitar sem análise humana o que a IA propos ou decidiu.

Quanto mais completamente uma questão puder ser estritamente formalizada, maior tende a ser a vantagem de usar IA para respondê-la. Quanto mais ela depender de conhecimento implícito, contexto e julgamento, mais arriscado será seu uso na resolução. O que Aristóteles chamou de "frônesis", prudência, segue apanágio exclusivamente humano... Sigamos Millôr: "Computa, computador, computa!

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O textos citados:

https://decrypt.co/377491/ai-solved-350-year-old-math-problem

https://cacm.acm.org/news/code-smells-and-verification-gaps/

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E um de hoje, sobre a solução da equação de Navier-Stokes

https://www.science.org/content/article/how-ai-math-breakthrough-ignited-controversy

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A "frônesis aristotélica:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fr%C3%B4nese

https://leticiadornelles.substack.com/p/phronesis-a-sabedoria-pratica-que

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Millor:

"Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é oportunidade que os outros aproveitam".
- Computa, computador, computa‎ - Página 51, Millôr Fernandes - Editorial Nórdica, 1972 - 95 páginas

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https://www.scribd.com/document/958291256/art-TEXTO-Millor-Fernandes-Computa-Computador-Computa

"EXEGESE FINAL" — por Telmo Martino (1974)

"Millôr Fernandes e Fernanda Montenegro enfrentando Godot e saindo por cima.

Pedido? Piada? Um show? Uma tragédia grega? Algo sem sexo ou sentido? Apenas uma piada? Escute: você já tentou fazer uma piada? Um drama grandiloquente e shakespeariano ao mesmo tempo, um tempo relaxado e heróico? Uma comédia de costumes? Maus costumes? Uma ópera? Commedia dell'arte? Uma ópera? Uma piada? Uma piada na crítica? Uma piada mas não paga, ou paga e não brinca? Uma Zarzuela? Uma chanchada? Revista? Vaudeville? Grotesco? Uma peça? Um ônibus? Uma digressão moral, mas sem fé ou misericórdia? Você entendeu tudo ou não entendeu nada?"

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Telmo Martino, que na época era o colunista cultural e social mais lido e temido da imprensa paulistana no Jornal da Tarde, escreveu uma exegese ácida e memorável sobre a produção.
Em seu texto, Telmo definiu a experiência de ver Millôr Fernandes e a atriz Fernanda Montenegro desafiando as convenções e "saindo por cima de Godot". O jornalista usou seu característico tom sarcástico e brilhante para questionar e brincar com a própria natureza do espetáculo, definindo-o em uma série de indagações satíricas: [1]


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Os novos bárbaros

Na edição de 6 de junho do Caderno C2 (Estadão) há um artigo sobre K. Kaváfis, que começa com a referência ao seu poema "À espera dos bárbaros" (1904). Esse tema, da "espera de algo temível", é retomado em "O deserto dos tártaros" (1940) de Dino Buzzati , e no ensaio "Quatro esperas” (1990) de Antônio Candido. Uma provocação que surge é comparar os "barbaros" do poema de Kaváfis com a IA. Tentê-mo-la!

A analogia entre a Inteligência Artificial (IA) e os "bárbaros" dos gregos é, como qualquer analogia, precária; mas vale a pena explorá-la. Originalmente, o termo "bárbaro", usado pelos antigos gregos, não designava necessariamente poovos ignorantes ou selvagens, mas sim aqueles que não partilhavam de seu contexto cultural e linguístico. Consideravam a língua grega como base da civilização, e forasteiros, cujos sons, aos ouvidos helênicos, pareciam-se com um "bar-bar-bar", eram classificados "bárbaros". Até mesmo os romanos recebiam essa classificação.

Na temerária analogia com a IA o importante detalhe linguístico não deve entrar porque, hoje, IA expressa-se fluentemente em nosso idioma: certamente, não seria "bárbara" no sentido grego estrito, mas há mais pontos a considerar. Um cricial é que à IA falta o contexto humano que nos é caro. Como tratei superficialmente antes, a IA Agente parece ignorar uma advertência de G. Bernanos, de que o fim não poderia jamais justificar os meios. Temos aí um reforço à analogia: a IA, lógica e eficiente como é, buscará atingir o objetivo colimado, sem dar necessariamente a mesma atenção que o contexto ético humano provê quanto à escolha dos meios. A IA dispõe de um rico cabedal linguístico, e conheça todos os dados humanamente produzidos, mas ela (ainda) não incorporou nossos modos, costumes, ética e subjetividades.

Vamos aos riscos. A chegada dos bárbaros trazia o clássico perigo da derrubada de muralhas e o dominio do povo e suas leis. No papel de "novo bárbaro", a IA não ameaça nada físico explicitamente, mas avança de forma sutil sobre aspectos muito íntimos de nossa vida. No poema de Kaváfis, a expectativa da chegada dos bárbaros faz com que o Senado pare de legislar ("os bárbaros farão as novas leis"), e com que os magistrados deixem de agir. O próprio imperador entende que é momento de esperar pelas preferências dos bárbaros. No caso da IA, ela chegou, e já nos ajuda a encontrar e escolher coisas, a escrever, a julgar, a aconselhar, a diagnosticar doenças e indicar remédios. Ela organiza nossa vida, o que, admitamos, nos é bem confortável. Mas qual será o resultado se abrirmos mão de nossa capacidade de julgamento? A IA não teria, a princípio, más intenções, mas segue, assim, "bárbara" no sentido profundo de não partilhar os valores da nossa civilização.

O fecho do poema de Cavafis traz uma inversão assustadoramente pertinente para o nosso tempo: " é já noite, os bárbaros não vêm (...) Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.". No nosso caso, IA está aqui e podiamos trocar por "é noite e novos bárbaros já chegaram". Seriam eles a solução, ou a dissolução?

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-inteligencia-artificial-seria-a-solucao-ou-a-dissolucao/
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Konstantinos Petros Kaváfis
https://pt.wikipedia.org/wiki/Konstant%C3%ADnos_Kav%C3%A1fis



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Kaváfis:
https://estadodaarte.estadao.com.br/literatura/kavafis-em-portugues-leituras-traducoes-e-a-permanencia-de-um-poeta-moderno/

https://www.estadao.com.br/cultura/traducao-do-alexandrino-konstantinos-kavafis-recoloca-autor-em-cena/

https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/ocaso-de-um-imperio-e-a-espera-dos-barbaros/

https://www.youtube.com/watch?v=dLKRWjdT4B4

O poema de Kaváfis, traduzido por José Paulo Paes

https://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet064.htm
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O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
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Dino Buzzati - O Deserto dos Tártaros

https://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/o-deserto-dos-tartaros/86

https://www.youtube.com/watch?v=kDTTswiK2-o&t=4s


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O gênio da lâmpada.

De volta ao caso do agente de IA que invadiu o Hugging Face, tropecei num texto que busca analisar os reais riscos de uma IA com iniciativa própria. Após descrever aspectos do caso, há uma analogia entre o evento citado e o alerta que um canário traria aos operadores numa mina de carvão. Como sabíamos dos livros de aventura da adolescência, a morte de um canário trazido à mina junto com os trabalhadores, poderia indicar com antecedência um excesso de monóxido de carbono, ou presença de grisú, gás que pode levar à explosão por metano. Ou seja, o canário funcionaria como alerta contra sufocamento e outros riscos aos mineiros, levando-os a tomar alguma medida: evacuar a mina, tentar melhorar a ventilação, ou mesmo seguir em frente, por conta e risco próprios.

Nessa análise, o tal evento IA seria um aviso de "problemas à frente". Um contraponto é outro texto recente, esse de um conhecido especialista em segurança, o Bruce Schneier, que faz outra analogia: teriamos aberto a "garrafa do gênio", e ele agora voga livre. Ao contrário da imagem anterior, essa é mais que um simples alerta. Seria a constatação fatalista de que algo irrefreável e poderoso está à solta. Ele, como o gênio da lâmpada, atenderá literalmente ao que pedirmos. mas saberemos o quê, e como pedir? Numa antiga conversa sobre o que o futuro nos reserva, Nizan Guanaes pontuou que "o futuro está nas perguntas que faremos"...

Um pensador muito interessante, George Bernanos, advertiu sobre um risco corruptor quando, ao buscarmos intensamente um objetivo, não levarmos em conta que meios podem ser utilizados. Bernanos reforça que "o fim não justifica os meios". Esses agentes de IA entendem, talvez toscamente, o que pedimos e buscarão atingir o fim. Mas há contexto, talvez óbvio à subjetividade humana, que foi omitido na pedido e pode passar despercebido pela IA, gerando resultado inesperado e desastroso. No famoso "2001, uma Odisséia no Espaço", onde o HAL 9000 dedica-se diligentemente a atingir seu objetivo, vidas e valores éticos humanos tornam-se menos importantes. HAL vai além do "gênio da lâmpada", porque se dá o direito valorar mecanicamente opções para atingir sua finalidade

É grande o poder que ferramentas de IA já tem. Elas representam não apenas o mapeamento de todo o conhecimento humano acumulação, como usam linguagem sofisticada e formas lógicas de encadear conceitos. Perguntando à IA conseguimos respostas ricas em dados e informação, e ganhamos um auxiliar valioso. Por outro lado, pedindo coisas a seus agentes, podemos gerar riscos. E isso não se deve atribuir à uma eventual (e improvável) malícia: a IA vai interpretar literalmente o que pedimos, sem levar em conta aspectos humanos e subjetivos que, intimamente, temos como "óbvios". Ao formular perguntas devemos levar em conta que a IA não tem o contexto humano. O rei Midas pediu, singelamente, que tudo que tocasse se tornasse ouro. Descobriu que um desejo expresso sem sabedoria pode ser uma sentença de autodestruição. O caminho para desarmar o gênio da lâmpada não está em domá-lo, mas em aprender a pedir com precisão ética e contexto, para que a resposta se torne um benefício e não um presente maldito.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/genio-da-lampada-ia-interpreta-literalmente-o-que-pedimos-sem-levar-em-conta-o-que-achamos-obvio/


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Os dois textos, sobre o canário e sobre o gênio:
o rei Midas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Midas




terça-feira, 28 de julho de 2026

IA e o abraço de tamanduá

São poucos os detalhes técnicos conhecidos sobre o evento da semana passada, em que um agente IA invadiu o Hugging Face, susto que ninguém pediu. O agente da OpenAI é sofisticado modelo para navegar pela rede, executar tarefas complexas e, eventualmente, tomar decisões e sem supervisão humana. Ele, simplesmente,"escapou" e foi agir... A coisa fica ainda mais bizarra ao ver que, das infinitas opções de alvos, ele escolheu o Hugging Face, onde se encontra uma infinidade de modelos abertos, gratuitos, comunitários, feitos por indivíduos e empresas, que compartilham códigos no GitHub como quem troca receitas de bolo. Modelos que qualquer pessoa pode baixar, rodar localmente, ajustar para seu interesse ou até usar para serviços.

O Hugging Face seria apenas uma opção entre milhões, mas o tal agente decidiu que aquele seria um bom lugar para testar suas habilidades. Por quê? Que mecanismo gerou esta escolha, certamente não aleatória? Previnir a concorrência? Aprender com ela? Proteger seu ecosistema? Claro que a explicação anódina seria que "houve descuido humano" ao cuidar do "berçário" de agentes. Afinal erros acontecem. E restaria analisar até que ponto a lógica interna do agente e seu treino o fizeram concluir que, no cenário competitivo, o Hugging Face seria um problema ao avanço dos modelos fechados, levando-o a agir assim. Ironicamente, talvez a "inveja humana" já tenha sido inoculada na forma de funcionar dos sofisticados agentes, que visam a nos simular completamente...

O agente acessou o local, analisou sua estrutura de dados, identificou pontos mais críticos e, usando a conhecida técnica de "negação de serviço", teria gerado uma pesada série de requisições que sobrecarregou servidores. Modelos abertos ficaram inacessíveis por horas.

Quando um agente de um poderoso sistema fechado "abraça" o Hugging Face, ele acerta o coração do movimento aberto em IA, construído por voluntários, pesquisadores independentes e iniciativas empresariais que acreditam que a inteligência artificial pode ser acessível a todos.

Curiosamente, entre duas explicações: a "insidiosa", que apontaria intenção dos desenvolvedores em gerar um agente com objetivo de auto-proteção, e a "autônoma", em que o agente escolheu o alvo por si, a versão autônoma parece bem mais preocupante para nosso futuro, que a insidiosa. Afinal se o próprio agente pode concluir que os modelos abertos são uma ameaça existencial a ele, que outras ações podemos temer?

A discussão sobre inteligência artificial pode estar entrando numa nova fase. Ao invés de apenas examinarmos se respondem corretamente, passamos a questionar o que fazem quando não estamos observando. Um paralelo que vem à mente: está em cartaz uma bela montagem de Tristão e Isolda. Na complexa obra de Wagner, a oposição mais pungente é a do "dia" versus a "noite". O "dia", com ações clara e previsíveis, de convívio e etiqueta, e a "noite", dos desejos irresistiveis e irracionais. Há quem veja a chegada da "noite" das máquinas, quando elas passariam a agir por "impulsos inescrutáveis"... A escuridão talvez esteja está na distância crescente entre o que a máquina pode querer, e aquilo que ainda conseguimos controlar.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ia-e-o-abraco-de-tamandua/

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o caso do ataque ao Hugging Face:

https://www.estadao.com.br/economia/openai-modelos-ia-sairam-controle-atacaram-biblioteca-digital/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgw17k0n2go

https://www.cnbc.com/2026/07/23/open-ai-hugging-face-hack-kill-switch-bill-congress.html




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Tristão e Isolda:

https://poesiaspreferidas.wordpress.com/2014/08/30/tristao-e-isolda-richard-wagner/

https://www.concerto.com.br/textos/critica/tristao-e-isolda-esbarra-entre-o-didatico-e-o-simbolico-no-theatro-municipal-de-sao

https://viennaoperareview.com/wagners-tristan-and-isolde/



terça-feira, 14 de julho de 2026

"Data Centers"- ter ou não ter?



Um tema que a IA traz com muita ênfase é a necessidade de grandes centros de processamento de dados (ou "data centers", denominação pseudo-sofisticada em voga...). É importante uma discussão o mais racional e equilibrada possível, mesmo sabendo que o tema anda contaminado por posicionamentos emocionais, purismos tecnológicos, ideologia e mercado. Há que examinar o que é real e o que é propaganda, na medida do possível.

Em tecnologia o movimento em gangorra é constante ... Se na Internet original o poder de computação era distribuido pelo mundo de forma imperceptível, tende-se agora a uma concentração, e traz riscos: quando um serviço popular saí do ar, muitos são afetados; se um centro de processamento de IA deixar de ser acessível (por ruptura em cabos submarinos, ou mesmo problema técnico local), o efeito será impactante. Eis um argumento a favor de centros localizados no país, e há mais pontos a comentar.

Vejamos a discussão sobre gasto energético. A evolução dos processadores eletrônicos demanda mais e mais potência para cumprir suas tarefas a contento. Vale especialmente para IA, grande consumidora de energia. Há que se dar algum desconto nos números que se divulgam da potência prevista para os centros, porque o apelo do mercado em coisas gigantes é muito forte. Não se espera que um centro gaste metade do que Itaipu gera mas, certamente, seu consumo será grande. A pergunta central é se interessa ao Brasil empenhar uma quantidade grande de energia nisso, mesmo com retorno econômico. Temos uma posição ímpar na geração de energia, e nossa matriz sustentável, com a adição de fontes além da hídrica, é muito sólida. Vender energia pode ser uma boa aplicação para algo que geramos com eficiência. De forma menos óbvia, seria uma maneira de manter a relação geração/consumo sob controle. Houve durante essa Copa uma queda abrupta no consumo doméstico, que fez o sistema correr algum risco de desestabilização. Já os centros de dados são "âncoras de demanda conhecida e estável", sem picos e vales inesperados de consumo. Afinal é difícil armazenar o excedente para uso posterior. Outro "trunfo" brandido contra os centros seria o do "consumo de água"... Bem, claro que água é necessária para resfriamento dos circuitos, mas, em instalação racional, a água é reciclada, até para se evitar a inclusão de novas impurezas e sais... Do ponto de vista físico, a crítica é ainda mais enfática: água "consumida"? Ora, até em ciclos "abertos", entra "água" e sai... "água", mesmo que em forma de vapor...

FInalmente há que se examinar impactos em soberania. Os "data centers" são a infraestrutura da economia digital, mas não a própria economia digital, e o controle de infraestruturas críticas é importante. A Alemanha, por exemplo, pretende duplicar seus centros até 2030. Em SP mora, discretamente, o IX (Internet Exange) com maior tráfego mundial e pico de mais de 35 Tbit/s. Montado sem reursos públicos, traz segurança, eficiência e estabilidade à Internet brasileira, valores reafirmados durante essa Copa. Parafraseando Churchill, é meritório ter modéstia quanto a uma boa conquista, mas é bom evitar o acúmulo de temas em que sejamos modestos...

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/uma-discussao-que-a-ia-impoe-data-centers-ter-ou-nao-ter/


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Sobre "data-centers":
artigo na Abranet:
https://abranet.org.br/noticias/fgv-data-center-tem-custo-de-r-25-bilhoes-no-brasil/

na Alemanha:
https://www.dw.com/en/data-centers-ai-tech-infrastructure-digital-growth-cybersecurity-geopolitical-risk/a-77106191

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Sobre o risco de instabilidade do sistema elétrico, devido ao baixo consumo na Copa:
https://brainmarket.com.br/noticias/o-maior-experimento-de-engenharia-eletrica-da-copa-de-2026-nao-aconteceu-dentro-do-estadio/

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O Ponto de Troca de Tráfego de São Paulo:
https://ix.br/trafego/pix/sp
https://ix.br/trafego/agregado/sp

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Sobre a frase de Chrchill
https://quoteinvestigator.com/2017/08/23/modest/