terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Dos tempos

O ano se vai e seguimos por aí… Peço sua complacência para, aproveitando o momento gregoriano, fazer algumas divagações sem tecnologia, nem o devido estofo humanistico… Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma trancendência), e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. Hamlet não aceita o destino como faria um estóico, mas, por outro lado, também não o assume como um herói trágico. A pergunta dele, talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

Para o clássico “herói trágico”, o destino não é evitável: o herói não escolhe o fado, mas escolhe como responder a ele. O trágico não está no sofrimento, mas na dignidade de sustentar o próprio gesto sem garantias. Os estóicos retrabalham esse conceito por meio da razão. Para eles, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estóico não se queixa, rejeita o ressentimento, e mantem a dignidade sem ilusões. Mas acaba por fazer uma amenização do trágico: o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem pra frente, nem pra trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estóica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati — amar o destino — seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu — e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mâe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria: ‘deixa estar’”… Let it be!

Bom ano a todos!

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-com-o-que-o-destino-nos-traz/

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Solilóquio de Hamlet
https://shakespearebrasileiro.org/ser-ou-nao-ser-uma-traducao-de-machado-de-assis-mario-amora-ramos/
<...> Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
<...>
https://en.wikipedia.org/wiki/To_be,_or_not_to_be
<...> Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them
<...>

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Herói trágico
https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3i_tr%C3%A1gico

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Amor Fati
https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_fati

Ecce Homo, - "como tornar-se o que se é..."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ecce_homo_(livro)
https://www.gutenberg.org/ebooks/52190



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Let it Be
https://en.wikipedia.org/wiki/Let_It_Be_(song)
When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be
And in my hour of darkness she is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be
Let it be, let it be, let it be, let it be
Whisper words of wisdom, let it be
<...>

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A pedra de toque

O Brasil, bem cedo e com vigor, aderiu à digitalização de serviços, e já era notável a base computacional que os bancos tinham no século passado: transações por aqui eram resolvidas em menos tempo do que, por exemplo, nos Estados Unidos. A própria identificação dos correntistas já se valia de impressão digital.

Esse avanço tecnológico em conectividade e automação, traz conforto e economias, porém deve-se estar alerta a fragilidades: se hoje a internet falhar, ou tivermos um apagão elétrico como o da semana passada, boa parte dos serviços que eram tidos como garantidos podem estar indisponíveis, gerando caos. Por virtude, nossa internet está entre as mais estáveis do mundo.

Esse risco não é novo: em 2007 a Estônia, país modelo ao digitalizar praticamente todas as atividades de seus cidadãos, sofreu um ataque que tirou do ar boa parte dos serviços. O que gerou a pane foi um sincronizado e orquestrado ataque de “DoS” “denial of service” (negação de serviço): uma enxurrada de pedidos fictícios a sistemas e serviços que visava a sobrecarregá-los de forma a torná-los inoperantes. Hoje tentativas de “negação de serviço” são dos ataques mais comuns, mas há formas de neutralizá-los.

O conjunto de riscos a que a digitalização está continuamente submetida é um “alvo móvel”. Para cada novo ataque desenvolvem-se formas de defesa, porém, como no caso de doenças, o remédio é posterior ao problema. Por isso é fundamental o constante monitoramento do que se passa pela rede, buscando antecipar-se a uma nova forma de ataque. Um dos meios usados são os “potes de mel”: máquinas desprotegidas, espalhadas pela rede, para potencial alvo de ataques. Ao destrinchar o que se passa com elas, pode surgir um eventual remédio para novo problema. Isso depende da colaboração ampla, internacional e multissetorial, entre equipes voltadas à segurança. Elas trocam dados sobre o que encontraram, e buscam possíveis formas de mitigação. Além disso, é importante que as instituições que sofreram algum ataque o reportem a centros de emergência que monitoram o cenário local. Assim, é vital que exista confiança entre os entes envolvidos, mantendo sigilo em informações obtidas e preservando-as ao fim a que se destinam: monitorar o cenário da rede. O CERT.br, nosso órgão central de coordenação nessa área, recebeu mais de 110 mil notificações de incidentes apenas em novembro passado. Órgãos como o CERT.br disponibilizam informações, articulam e conectam os diversos atores, além de fornecer uma gama de cursos de formação, e frequentes publicações sobre boas práticas e medidas acautelatórias.

Segurança se constrói com cooperação, não com medo. Com reação e mais antecipação. Sem enfraquecer criptografia em nome de “segurança”, nem normalizar tentativas apressadas de bloqueio, sem base clara e técnica. Reduzir esse sistema colaborativo e virtuoso a um braço centralizado policial/regulatório, pode incentivar a que os incidentes passem a ser escondidos. A governança em segurança tem que ser distribuída e multissetorial por projeto. Uma centralização disso pode levar à redução do reporte de informações, e pode criar pontos únicos de falha, acabando por enfraquecer a própria segurança que queria proteger.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/a-centralizacao-pode-enfraquecer-a-seguranca-da-internet/

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https://cert.br/
https://stats.cert.br/incidentes/

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https://www.wired.com/2007/07/massive-wave-of/
https://www.wired.com/2007/08/ff-estonia/ 



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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Interação Parassocial

Há 35 anos o dicionário Cambridge escolhe e publica a “palavra do ano”. Alguns exemplos: em 2017 foi eleita “fake news”, em 2019 “(my) pronouns”, em 2020 “covid”, em 2023 “enshittification” (neologismo criado por Cory Doctorow em 2022) e… neste 2025, “parasocial interaction”. No mesmo sentido, diversos artigos e reportagens, como as da Deutsche Welle sobre “quão profunda a relação com a IA pode se tornar”, tratam da crescente dependência emocional e afetiva que nosso relacionamento com a IA está trazendo.

Nem a IA e nem esse tipo de adicção emocional são fenômenos novos. Em 2013, um filme de ficção originalmente chamado “Her” e, em sua distribuição nacional, “Ela”, contava o que se passou com um escritor ao comprar um novo sistema operacional (Samantha) para seu computador. Ocorre que o tal sistema operacional, dialogava com o dono usando uma voz feminina muito sensual, e tinha crescente interesse em interagir com o escritor e entender suas preocupações. Ele se apaixona pela Samantha virtual a ponto de, até, desenvolver ciúme em relação à IA. Mais que isso, em sua análise a IA compara-se muito favoravelmente com seus relacionamentos humanos. Conclui que IA é um ideal a ser perseguido, pois apresenta características muito melhores que as que ele encontrava, por exemplo, em amigos e na ex-esposa.

O termo “parassocial” teria sido cunhado em 1956 para descrever as ligações psíquicas que telespectadores formavam com personalidades da TV de então, e hoje volta à cena com força, num ambiente de “influenciadores digitais” e “companheiros” (avatares criados por IA), que se propõem a dialogar conosco e se colocam permanentemente à disposição. “Parassocial” descreve uma condição crescente de vínculos emocionais unilaterais, intensos, que parecem reais a quem os sente, mesmo que não haja reciprocidade real.

Nunca estivemos tão cercados de tecnologia, e nunca estivemos tão sós. E, não esqueçamos, há ainda o algoritmo trabalhando pesadamente, simulando atenção, empatia e afeto. IA não é um objeto como os que conhecíamos: eu tenho a mesma caneta e o mesmo relógio há décadas, e gosto deles, mas eles não mudam nem se adaptam. A IA é fluida, personalizada, responde amavelmente e memoriza nossas opiniões, reforçando-as. O confortável fato de não nos exigir reciprocidade torna o pseudo-diálogo uma volta reforçada ao “eu”. Talvez uma forma sofisticada de solipsismo.

Neste cenário, nossa privacidade passa por uma crise inédita: nunca depositamos tantos dados confissões, segredos, angústias e memórias em entidades cujo propósito real não conhecemos. E dados são o motor do circuito econômico que gira a IA: eles são coletados, processados, vendidos, e acabam por expor nosso exato perfil.

IA não é maléfica em si, e tem forte poder para nos ajudar no dia-a-dia, desde que não percamos de vista sua natureza: uma sofisticada simulação sem a reciprocidade humana, que busca dados. No enredo do filme citado, a questão não é se a IA nos amaria ou não. O perigo reside em que, enamorados dela, concluamos não precisar mais do relacionamento ou do amor de outros humanos.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/parassocial-e-eleita-palavra-do-ano-e-se-baseia-na-relacao-humana-com-a-ia/

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Uma internet única

Volta à cena a idéia da fragmentação da Internet, ou “splinternet”. Diversos países adotaram barreiras técnicas, políticas ou jurídicas ao fluxo global de informações. frequentemente justificadas com o argumento de que uma internet global representaria uma ameaça à soberania nacional. Depois da falsa dicotomia entre privacidade e segurança, temos outro pseudo dilema agora: optar entre uma internet única ou a soberania.

É importante voltar às bases, sem ignorar que há, sim, riscos associados à concentração de poder, que cada vez mais se observa na rede. A internet, em sua natureza técnica, foi concebida como um sistema único, colaborativo e interconectado. A ausência de fronteiras técnicas não implica em ausência de governança, mas, sim, na necessidade de mecanismos coordenados, multissetoriais e internacionais que, ao preservar sua integridade técnica, resguardem as prerrogativas regulatórias de cada país.

Numa analogia adequada aos tempos de COP30, o ar que respiramos não ameaça a soberania, tampouco o clima global, ou o oceano. mas todos eles pedem e necessitam de ação coordenada. Isoladamente nenhum Estado seria capaz disso. A ubiquidade técnica da rede não é um ataque à soberania, mas uma bela característica do mundo digital, a preservar!

Como disse há mais de 30 anos John Gilmore, fundador da EFF (Electronic Frontier Foundation), quanto ao espírito da arquitetura da rede, “a internet interpreta bloqueio como um dano técnico, e o contorna.”

Outra analogia vem à mente: comparar a Internet com a Biblioteca de Babel, de Borges. À maneira dela, a Internet nos forneceria acesso a infinitos conteúdos, muitos deles incompreensíveis ou difíceis de verificar, mas cristalizando a esperança e o desespero de quem busca sentido no aleatório. Afinal, quanto mais vasta a informação disponível, mais difícil é encontrar a sabedoria entranhada. A própria possibilidade da busca já vale o esforço.

Que as pessoas leiam mais. Que tenham acesso a bibliotecas coreanas, romances quenianos, poemas persas, contos brasileiros, A produção cultural universal precisa atravessar fronteiras como o ar vital que respiramos, sem passaporte e sem carimbo. O risco maior da fragmentação não é técnico - é cultural e humano. Ao preservarmos um meio de acesso aberto e global ao conhecimento científicas, cultural e artísticas de todos os países não diluiremos as identidades nacionais: as fortaleceremos. Quem lê o mundo torna-se mais capaz de compreender a si mesmo. Ler para compreender mas, também, ler para discordar.

Quem sabe ainda poderemos realizar o sonho utópico de Alexandria: uma humanidade que acessa a totalidade da sua produção, de romances mongóis, poemas sufis, narrativas yorubás, tratados japoneses, mitos maoris a ensaios brasileiros. A Internet, agora com a adição da IA, é um caminho para esse ideal. Defender uma Internet única é reconhecer que, assim como o ar ou o conhecimento, certos bens se tornam menos úteis, ou mesmo inacessíveis, se fragmentados. O objetivo não é abolir fronteiras, é impedir que elas se tornem muros.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/internet-sem-fronteiras-nao-e-uma-barreira-para-a-soberania/

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"Quando um muro separa, uma ponte une..."
youtube.com/watch?v=y0xRfgeJLNo&list=RDy0xRfgeJLNo&start_radio=1
https://www.letras.mus.br/mpb4/47531/

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A Biblioteca de Babel, do Jorge Luis Borges

https://site.ufvjm.edu.br/cafeliterario/a-biblioteca-de-babel-jorge-luis-borges/

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John Gilmore

https://en.wikipedia.org/wiki/John_Gilmore_(activist)

https://en.wikipedia.org/wiki/Wall

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Perfectwall.jpg

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terça-feira, 4 de novembro de 2025

ICANN 84 e a Internet

Terminou há dias em Dublin a 84a reunião da ICANN, “Internet Corporation for Assigned Names and Numbers”. São tres reuniões por ano, com rodízio entre as regiões. ICANN entrou em cena em 1998 para gerenciar o espaço de nomes de domínio, e a distribuição de identificadores numéricos aos dispositivos conectados à Internet. Antes dela quem desempenhava esse papel era a IANA, que em 1989 delegou o .br ao time de redes brasileiro.

Por ser a reunião 84, vem à mente a obra de George Orwell “1984”, que descreve um mundo onde a linguagem, a memória e o próprio pensamento haviam sido manietados pelo poder. Tudo era monitorado, tudo era filtrado, tudo era redefinido. O “Ministério da Verdade” não buscava compreender a realidade, mas fabricá-la.
Estamos num momento em que a Internet — rede que nasceu da abertura, da colaboração e da confiança — começa a enfrentar dilemas que evocam ecos de “1984”. Claro que não é o mesmo cenário, mas há sinais que inquietam.

O crescimento da vigilância, travestindo-se de segurança ou eficiência; o poder algorítmico que decide o que devemos lembrar e o que esquecer; a fragmentação técnica e política da rede em feudos digitais; a erosão da privacidade por identificações compulsórias. E há ainda o risco maior: substituirmos a arquitetura aberta da Internet por sistemas de controle, por cibernética.

A Internet, como uma cidade, tem suas vielas, suas esquinas escuras, suas áreas de poder, suas praças de encontro e seus becos de confabulação, E, como as ruas da cidade, também sente a mão da ordem e do controle. O temor que se espalha é de que o sonho da Internet livre comece a se estreitar. Há quem queira murar, quem queira limpar os becos, apagar as paredes grafitadas.

Mas há também contrapesos que sustentam a esperança: a criptografia que protege o silêncio legítimo; a governança multissetorial que mantém viva a pluralidade; as leis de proteção de dados que afirmam o indivíduo; a educação digital que liberta pelo conhecimento; as tecnologias abertas que garantem verificabilidade e confiança.

Talvez Orwell não imaginasse que um eventual futuro “Grande Irmão” um dia usaria logotipos sorridentes, interfaces elegantes e políticas de privacidade que ninguém leria, mas ele pressentiu que o perigo viria da busca de conforto. Que aceitaríamos vigilância sob o nome de proteção. Benjamin Franklin já nos tinha admoestado de que o sacrifício da liberdade em nome da segurança pode nos levar a perder ambas. A Internet é um espelho da humanidade, e espelhos, sabemos, são frágeis. Mas é melhor um espelho trincado do que um vidro negro, opaco.

A liberdade digital não é um dado, um estado natural. É uma construção diária, persistente e coletiva. Termino lembrando uma antiga máxima, que poderia ser lema dos que teimam em resistir: “per angusta ad augusta” - por caminhos estreitos, às grandezas. Talvez o destino da rede, e da própria liberdade, seja este: seguir tropeçando pelos becos apertados da história, mas sem jamais deixar de caminhar.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/quais-as-semelhancas-entre-a-internet-atual-e-o-mundo-de-1984/




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icann 84:
https://meetings.icann.org/en/meetings/icann84/?_gl=1*11xha3h*_gcl_au*MjA4NDkzMTU1My4xNzYyMjE3MjI5

https://icann84.sched.com/

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Citação de Benjamin Franklin:
“They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety.”
 
De Robert Heinlein:
“Secrecy is the keystone to all tyranny. Not force, but secrecy and censorship. When any government … undertakes to say to its subjects, ‘This you may not read, this you must not know,’ the end result is tyranny and oppression, no matter how holy the motives.”

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E uma versão da crônica com ajuda do ChatGPT:

1984 revisitado — a alma encantadora da Internet

Há, por detrás dos cabos, dos protocolos e dos endereços IP, uma alma. Uma alma que pulsa entre máquinas, feita de vozes humanas e de silêncios luminosos. A Internet, como as ruas de outrora, tem suas vielas, suas esquinas escuras, suas praças de encontro e seus becos de murmúrio. E, como as ruas, também sofre os caprichos da ordem e do poder.
Outro dia terminou a ICANN84, essa assembleia onde o mundo, em sua versão digital, tenta ainda conversar antes de decidir, discutir antes de mandar. Mas o rumor que vinha das salas - e que atravessava os fios como um sussurro elétrico - era o de que o sonho da Internet livre começa a se estreitar.
Há quem queira murar, quem queira vigiar, quem queira limpar os becos e apagar as paredes grafitadas de opinião. Ah, como se as ideias tivessem medo da luz! Recordei, então, o velho Orwell, que em 1984 viu nascer um tempo de olhos vigilantes e palavras controladas. Talvez ele não imaginasse que o “Grande Irmão” um dia usaria logotipos sorridentes, interfaces elegantes e políticas de privacidade que ninguém lê. Mas ele pressentiu - oh, sim - que o perigo viria do conforto. E que um dia chamaríamos censura de “segurança”, e vigilância de “proteção”.
As nações erguem muros digitais, cada uma proclamando sua soberania de dados, seu firewall patriótico, seu domínio nacional.
A rede, essa que nasceu universal, começa a se fragmentar como um espelho que cai no chão: cada pedaço reflete um rosto diferente, uma verdade diferente, uma versão conveniente do real. O cidadão digital, cansado de ser número, começa a desconfiar do próprio reflexo.
E no entanto - ainda há ternura na rede.
Há o programador que insiste em abrir código, o ativista que defende a privacidade, o acadêmico que debate em praça pública, o gestor que acredita no multissetorialismo como antídoto contra o autoritarismo. Há luz nos servidores e esperança nos pacotes que cruzam oceanos.
A Internet é o espelho da humanidade - e espelhos, sabemos, são frágeis. Mas é melhor um espelho trincado do que um vidro negro, opaco, que nos devolve apenas o olhar do censor.
Termino lembrando uma máxima antiga, que bem poderia ser lema dos que teimam em resistir:
Per angusta ad augusta - “Por caminhos estreitos, às grandezas.”. Talvez o destino da rede, e da própria liberdade, seja este: seguir tropeçando pelos becos apertados da história, mas sem jamais deixar de caminhar.



terça-feira, 21 de outubro de 2025

Humanidades


Quem cunhou a palavra “cibernética” foi Norbert Wiener em 1948, num livro com o provocador subtítulo de “controle e comunicação no animal e na máquina”. A semântica da palavra é descrita pelo próprio Wiener: “derivei-a do grego ‘kybernetes’, ou ‘timoneiro’. É a mesma palavra grega de onde provem ‘governante’”. Assim, semanticamente, a raíz “ciber” está associado a controle e governo. “Cibernética” ficaria próximo de “governança”.

O trabalho de Wiener está também fortemente ligado à evolução da Inteligência Artificial. Em outra obra dele, “O Uso Humano de Seres Humanos”, de 1950/1954, há um conjunto de reflexões que ainda parecem muito atuais. O livro alerta que o ser humano está numa corrida entre o aprender e o risco de desaparecer. As novas tecnologias seriam “facas de dois gumes”: caberá aos humanos usá-las para o bem ou para a catástrofe.

Dois acontecimentos recentes reforçam esse pensamento crítico: há dias o governo da Albânia anunciou que terá agora uma “ministra virtual”, IA integrando o governo. Alegam os que defendem a ideia que, com IA, não haverá corrupção possível, ou nepotismo, e que a transparência dos atos será maior… Parece um caminho fácil, levando a uma solução falsa. Como o próprio Wiener diz na obra citada, “uma sociedade humana só será possível entre humanos”.

Um segundo ponto que pode ser significativo, é como abordamos hoje os riscos a que realmente estamos expostos no mundo das redes. Um dos pontos de destaque e discussão é como proteger crianças e adolescentes dos perigos que os espreitam. O caminho escolhido parece ser o de “sanitizar” o ambiente em que crianças e adolescentes vivem: limpá-lo das mazelas e dos riscos que ele certamente contem. É um objetivo voltado a “eliminar antecipadamente perigos”. Parece-me, entretanto, que não há como eliminar os perigos que há no mundo, da mesma forma que não há como tornar adequada para crianças uma rua movimentada, ou uma floresta segura para excursionistas. Há, sim, que se educar os tutores das crianças sobre os perigos que existem e as melhores formas de evitá-los. Há que se ensinar às crianças a contenção e a o uso de resursos seguros. E há, finalmente, que responsabilizar e punir os agentes reais que perpetram o abuso. Como diziam os antigos, quem brinca com fogo se queima, e não há como torná-lo seguro para crianças. A única forma segura é mantê-las longe do fogo, explicar que ele sempre queimará, e punir quem as expuser propositadamente ao dano. Ou seja, para as crianças, tutela e ensino. Para os adultos, mais educação e letramento digital, e menos tutela que embota o senso crítico.

Talvez possamos evitar, com isso, o que outra publicação recente - a “AI 2027” - traz de assustador: no ritmo em que estamos, se não atentarmos ao rumo tomado, a humanidade corre o risco de se extinguir em poucos anos. Esperemos que esse seja um simples alerta, superável por uma tomada de consciência em tempo hábil. Voltando ao livro do Wiener, ele alerta que “qualquer uso do ser humano, em que ele é menos demandado, ou a ele é atribuido menos do que sua plena potencialidade preveja, torna-se uma degradação e um desperdício”.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/na-era-digital-e-preciso-mais-educacao-e-letramento-digital-e-menos-tutela/

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o livro do Norbert Wiener:



Hence "Cybernetics," which I derived from the Greekword kubernetes, or "steersman,'* the same Greek wordfrom which we eventually derive our word "governor."

Capítulo 9, “A primeira e a segunda revolução industrial” - segunda edição. 
Let us remember that the automatic machine, whatever we think of any feehngs it may have or may not have, is the precise economic equivalent of slave labor. Any labor which competes with slave labor must accept the economic conditions of slave labor. It is perfectly clear that this will produce an unemployment situation, in comparison with which the present recession and even the depression of the thirties will seem a pleasant joke. This depression will ruin many industries—possibly even the industries which have taken advantage of the new potentialities. However, there is nothing in the industrial tradition which forbids an industrialist to make a sure and quick profit, and to get out before the crash touches him personally. Thus the new industrial revolution is a two-edgeds word. It may be used for the benefit of humanity, but only if humanity survives long enough to enter a period in which such a benefit is possible. It may also be used to destroy humanity, and if it is not used inteligently it can go very far in that direction. There are, however, hopeful signs on the horizon. Since the publication of the first edition of this book, I have participated in two big meetings with representatives of business management, and I have been delighted to see that awareness on the part of a great many of those present of the social dangers of our new technology and the social obligations of those responsible for management to see that the new modalities are used for the benefit of man, for increasing his leisure and enriching his spiritual life, rather than merely for profits and the worship of the machine as a new brazen calf. There are many dangers still ahead, but the roots of good will are there, and I do not feel as thoroughly pessimistic as I did at the time of the publication of the first edition of this book.

https://www.goodreads.com/work/quotes/148587-the-human-use-of-human-beings-cybernetics-and-society

Any use of a human being in which less is demanded of him and less is attributed to him than his full status is a degradation and a waste.”

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Ser ou não ser?

Há peças imortais que precisam ser revisitadas de tempos em tempos. São como camaleões: adaptam-se à época da releitura, revelando nuances diferentes das que haviam sido notadas pelas gerações anteriores. Um exemplo disso é o Hamlet, de Shakespeare (aliás, num texto interessante do dia 4 passado, Ted Gioia explora uma simetria bem intrigante: a relação entre o comportamento do príncipe da Dinamarca e a atual “geração Z”). Aproveito para tentar outro paralelo, talvez simplório, entre Hamlet e a IA.

Logo no começo há a aparição do fantasma do pai de Hamlet que, ao contar como foi assassinado, pede vingança. É o motivante central da peça. Hamlet se pergunta se a visão é real, ou uma tentação demoniaca. Hoje temos uma dúvida recorrente quando recebemos vídeos que podem ser “deep fakes”, mas são verossíveis, contam algo possível e, até, propõem ação. Há verdade na “voz da máquina”? Saberemos julgar? Agiremos por convicção ou convencidos por ela?

Hamlet assume que buscará vingar a morte do paí, para a qual a própria mãe teria colaborado, casando-se depois com o tio usurpador. E, nessa busca de vingança, arquiteta um plano, um “algoritmo”, para tentar fazer com que os culpados se revelem: monta uma peça, a “ratoeira”, em que encena, à vista de todos, os detalhes do envenenamento do pai, mas sem citá-lo. Ao final, a clara perturbação causada nos suspeitos mostra que o fantasma do pai transmitiu verdade. Sim! A IA pode dar palpite certo!

Indo ao clímax da peça, no famoso solilóquio “ser ou não ser”, Hamlet tem que decidir sobre vida ou morte (suicídio), ação ou omissão, e em ambos os casos há o temor de efeitos futuros muito ruins. A analogia aqui é dupla: se devemos ou não usar a IA em nossas decisões e, na discussão sobre regulação, qual a medida certa do remédio. Na peça, a decisão por agir gerará grande destruição. Mortes acidentais, algumas até por desgosto. O amor e a inocência perdem-se em meio ao caos e Ofélia, sua amada, enlouquece e morre numa espécie de “suicídio poético”, deixando-se afogar por achar que Hamlet estaria louco (aliás ele, acidentalmente, matara o pai de Ofélia). Não faltam exemplos de pessoas que optaram por solução drástica, após longas conversas com IA. Na era das máquinas, da vulnerabilidade emocional, da solidão, da influência da IA e das redes sociais, quem protegerá a empatia?

Finalmente, rememorando a morte do bobo da corte Yorick com sua caveira na mão, Hamlet conclui que a morte nivelará tudo. A dúvida do “ser ou não ser” será resolvida ao fim. Se trocarmos a caveira por um iphone, teremos o nivelamento atual.

A tragédia da consciência diante da incerteza, termina com mais violência e traição: veneno oculto na espada de Laertes e na taça da vitória. Acabam mortos, tanto os que urdiam a trama, quanto o próprio Hamlet. Eis aí outro ponto de alerta: o fantasma, os algoritmos, a armação, os venenos, acabam com a família reinante em Elsinore. As últimas palavras de Hamlet são para o amigo Horácio, e poderiam ser um recado amargo para o futuro da voz humana: “o resto é silêncio”.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/ser-ou-nao-ser-shakespeare-ajuda-a-explicar-alguns-dos-dilemas-atuais-da-inteligencia-artificial/

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O artigo citado, do Ted Gioia
https://www.honest-broker.com/p/hamlet-is-the-gen-z-story-we-need

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Hamlet:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hamlet




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